6 de out. de 2009
Um blog e meus quipus
Tomara que no meu horóscopo de hoje estrelas e planetas anunciem: Dia propício à criação. Pois eis que surge mais um blog no cosmos virtual. E justo o meu. Eu que nunca tive paciência de lê-los. E que até me irrito quando fulano enche a boca e professa: “Porque no meu blog...” “Isso ta lá, escrevi no meu blog.” “Você ainda não tem um blog?!!”
Tanta pompa para uma palavrinha de quatro letras que até bem pouco tempo nem existia. Mas na velocidade em que surgem não me espantaria se logo todo indivíduo fosse obrigado a ter um. Como um RG. E mais do que isso, seu blog faria parte integrante de sua personalidade. E surgiria a blogmancia anunciando: “Descubra seu futuro pelos traços de seu blog”.
E o espaço onde se encontram? Onde fica esse raio de mundo virtual? Em que dimensão é isso? É infinito? Ou vai saturar como a cidade de São Paulo? E quando os computadores estão desligados e ninguém está acessando os pobrezinhos? Eles ficam vagando na virtualidade como almas penadas?
Ah, os livros... Tão mais simples. Bem aqui na minha estante. Só pegar, deitar no sofá e ler avançando as páginas da direita para a esquerda. Deliciando, além das palavras, a espessura do papel, seu cheiro. Tudo bem, essa convenção não é absoluta. Na época dos astecas os livros sagrados, os códices, eram confeccionados com fina pele de veado ou papel de casca de árvore de figueira brava. E eram dobrados em forma de biombo.
Já os incas usavam os quipus, um sistema de comunicação feito com cordões de lã de alpaca, lhama ou de algodão. Neles os símbolos e números eram representados por diferentes cores e tipos de nós. O jeito como as cordas eram ligadas, o posicionamento e os espaços entre cordões e nós também tinham significados. E assim os povos dos Andes iam registrando as informações importantes para sua cultura e civilização.
Mas daí a eu ter de ler um texto que não posso tatear, que tenho de subir a página para avançar e onde os primeiros capítulos ficam no final... Já é de mais. Sabe o cara que pisou pela primeira vez na lua? Sou eu postando essa crônica. Escolhendo o design da página, as cores, fotos... Se alguém vai me ler? (Socorro! Já estou falando em blog na primeira pessoa!) Terei seguidores, bisbilhoteiros, opositores?
Edson Cruz (meu professor de webescrita no curso de pós-graduação em Criação Literária) e minha tia Dete (jornalista e escritora), vocês não venceram! Por hora me considerem apenas convencida. Uma trégua a esse mundo insólito. Se eu mergulharei nessa aventura, ou deletarei esse projeto de criação, só Deus e os internautas ficarão sabendo.
(Illustração de Felipe Guaman Poma de Ayala sobre quipus, publicada no Primer Nueva coronica y buen gobierno em 1615)
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