26 de fev de 2016

Valéria Polizzi ainda está viva? Viva e meditando!



Eu, Rê, Pri, Dé, minhas amigas da escola e a filhinha da Dé (dez 2015)

Vira e mexe as pessoas me procuram com essa pergunta: "Se ainda estou viva"
Sim! Vivinha da Silva. Trilhando meus caminhos por esse planeta, acabo de fazer 45 anos (com hiv há 29). Tomando o coquetel diariamente, fazendo exercícios físicos, me cuidando. Algumas coisas mudaram: Me separei, minhas duas avós morreram. (E eu que achava que ia morrer antes que todo mundo...) Estou podendo acompanhar o envelhecimento dos meus pais e agora é minha vez de cuidar deles, quem diria! Estou vendo o crescimento dos sobrinhos! E, acreditem, meus amigos continuam os mesmos.


Tia Mõnica, eu, minha mãe, tia Dete e minha avó Ana Maria (Corumbá, nov 2014)




Meu pai, e meus sobrinhos, Helena e Nivio (SP, dez 2014)


Estou numa fase zen, em que amo minha companhia. Me levo no parque para caminhar com meus cachorros, curto meus amigos e família, e a meditação ocupa uma espaço cada vez maior na minha existência. Tantos são os benefícios que essa prática me traz, que resolvi dividi-la com mais gente.





Eu, Tulipa e Mozart no Parque da Granja Julieta (SP, março 2014)


Meu caminho na meditação


A meditação apareceu bem cedo na minha vida. Quando criança estudei em uma escola Montessori onde éramos apresentados a práticas meditativas. Já no jardim da infância sentávamos em círculos, fechávamos os olhos e aprendíamos a ficar em contato com nós mesmos.

Na adolescência fiz meu primeiro curso de meditação e isso me ajudou muito quando descobri, aos 18 anos, que eu era HIV-positivo. Nessa fase turbulenta, quando a aids ainda era sinônimo de morte, o preconceito, enorme e as propagandas da televisão só reforçavam tudo isso, poder entrar num estado adverso de consciência e meditar acessando um oásis dentro de mim mesma, foi minha tábua de salvação.

Em 1999 fiz uma viagem de três meses pela Índia e Sri Lanka com meu ex-marido. E passamos um mês em um Ashram na cidade de Puttaparthi no sul da Índia.
 

Eu e meu ex-marido na India (dez 1999)





Templo indiano em Mahabalipuram (jan 2000)



Em  2009 eu descobri no Brasil a Fundação Arte de Viver do indiano Sri Sri Ravi Shankar e desde então venho fazendo cursos de respiração, meditação e ioga. Lá, eu também já participei de cinco retiros em silêncio de 4 a 5 dias cada. É incrível como essas práticas melhoraram minha qualidade de vida e meu bem estar.



Hotel Enseada do Caieiros- Bahia- Curso do Silencio Arte de Viver (Maio 2015)




Salão do Hotel - Curso Arte de Viver- Bahia. Muita ioga, respiração e meditação.


Em setembro de 2014 devido a uma recaída em depressão minha psiquiatra me indicou a Terapia Cognitiva Mindfulness e estive em atendimento com uma psicóloga dessa formação por 8 meses. Foi então que descobri que a meditação vinha sendo estudada e aplicada na medicina e psicologia de uma forma laica há anos nos Estados Unidos.

Desde 1979, o professor de medicina da Universidade de Massachusetts, Jon Kabat-Zinn, baseando-se em técnicas milenares de meditação, havia criado o MBSR – Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness.  O termo, que significa Atenção Plena, em português, oferece um treinamento da atenção e do equilíbrio emocional, por meio de técnicas de exercícios meditativos e psicoeducativos de fácil aplicação no dia-a-dia  que levam à redução do estresse e afetam positivamente os padrões cerebrais responsáveis pela ansiedade. Esse programa se mostrou muito eficaz em pacientes com doenças crônicas e com problemas psicológicos.

Na década de 1990 os psicólogos, Mark Williams, John Teasdale e Zindel Segal, estudando maneiras de prevenir recaídas em depressão criaram o MBCT – Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness, cujo grande estudo se mostrou eficaz na redução em 50% de recaídas em pacientes que já tiveram dois ou mais episódios de depressão. 




Centro Mente Aberta - UNIFESP- Campus Sto Amaro. (maio 2015)  


Encantada com todos os benefícios dessa prática em mim mesma, resolvi estudar para me tornar uma instrutora. E em  fevereiro de 2015 comecei o curso profissionalizante de Mindfulness do Centro Mente Aberta da UNIFESP. Ligado à faculdade Paulista de Medicina é um programa de extensão, ensino e pesquisa que tem por objetivo levar o Mindfulness para as pessoas da comunidade em geral, oferecendo cursos gratuitos.

Na UNIFESP também fiz dois cursos de 8 semanas MBSR – Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness - E um curso de 8 semanas MBTC – Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness. Atualmente sou uma instrutora em treinamento e em breve darei meu primeiro curso.

Devido à minha experiência com adolescentes em escolas nas palestras que ministro desde 1997, por causa do meu livro Depois daquela Viagem, decidi estender minha formação para ser instrutora da Atenção Plena para crianças e adolescentes. E começo essa semana na Mindful Schools, o curso online Mindful Educator Essentials, que me capacitará a dar aulas para essas faixas etárias em escolas.


A prática de meditação nas escolas


O Mindfulness nas escolas já está bastante difundido nos Estados Unidos e Europa. É impressionante os benefícios que podem trazer às crianças e adolescentes. Três filmes, disponibilizados no site da Mindful Schools mostram muito bem isso:

O “Just breath” (4min)  traz depoimento de crianças pequenas relatando como aprenderam a lidar com suas emoções de uma maneira mais saudável por meio do Mindfulness. O “Healthy Habits of Mind” (45min) é um filme que descreve o trabalho em sala da aula no jardim da infância. Nele, especialistas falam sobre a neurociência e a formação dos educadores e podemos observar a beleza dos pequeninos praticando a atenção plena na respiração, no ouvir, no sentir, no comer e no movimento.

Já o documentário “Room to Breathe” explora as transformações pessoais que acontecem com alunos adolescentes, suas famílias e educadores quando o Mindfulness é introduzido em um ambiente desafiador de uma escola pública dos EUA. Vele à pena assisti-los.

E quem sabe em breve estarei levando esse conhecimento às escolas!

 


15 de dez de 2015

Para gostar de Ler


Histórias sobre leituras - livros e leitores


É com grande honra que participo desta edição da série Para Gostar de Ler. 
Este volume  celebra a importância da leitura e os 50 anos da Editora Ática. São onze narrativas que falam sobre a paixão pelos livros. Com a maestria que os caracteriza, grandes nomes da literatura exibem seu talento em textos curtos e saborosos.

Os autores:  
Ivan Jaf, Carolina Maria de Jesus, Maria José Dupré, Moacyr Scliar, Valéria Piassa Polizzi, Ana Maria Machado, Paulo Mendes Campos, Ricardo Azevedo, Marcia Kupstas, Índigo, Marina Colasanti

 
Editora: ÁTICA
Coleção: Para Gostar de Ler
Segmento: Literatura juvenil
ISBN: 9788508174379
Edição: 1
Ano Edição: 2015
N° de Páginas: 136
Temas: livros, biblioteca, literatura, clássico da literatura, leitores, leitura 

25 de set de 2015

3 de mai de 2015

Depressão e meditação. O que isso tem a ver?



Resenha do livro: The mindful way trough depression

       (O caminho consciente através da depressão)


De Mark Williams, John Teasdale,  Zindel Segal e Jon Kabat-Zinn





Para aqueles que sofrem de depressão e sabem como é a escuridão de uma doença que, além de nos tirar a vitalidade, não se mostra em exames de imagem e ou de sangue – o que nos deixa ainda mais sem rumo – o livro “The mindful way trough depression” vem como uma luz. Os autores nos passam a clara impressão de que conseguiram mapear o funcionamento do cérebro de quem vive com a doença. E melhor, ensinam mecanismos para aprendermos a lidar com ela. A meditação Mindfulness é uma dessas ferramentas.

Em 1979, o professor de medicina da Universidade de Massachusetts, Jon Kabat-Zinn, baseando-se em técnicas milenares de meditação, criou o MBSR, Programa de Redução de Estresse Baseado em “Mindfulness”.  O termo, que significa Consciência Plena, propõe a aprendizagem de uma atitude aberta de aceitação em relação a tudo o que possa surgir na mente, enquanto estamos atentos a ela. Esse programa se mostrou muito eficaz em pacientes com doenças crônicas e com problemas psicológicos como ansiedade e pânico.

Na década de 1990 três psicólogos cientistas, Mark Williams, John Teasdale e Zindel Segal, estudavam maneiras de prevenir recaídas em depressão por meio da Terapia Cognitiva que já tinha provado eficácia para depressão aguda e prevenção de recaídas, quando se depararam com o trabalho de Kabat-Zinn. O uso clínico da Meditação Mindfulness chamou-lhes a atenção, não só pelas mudanças que provocavam nos pacientes em como eles pensavam, sentiam e se comportavam, mas também pelas mudanças nos padrões de atividades do cérebro. 

Já se sabia que quando a depressão começa a nos puxar para baixo, geralmente reagimos tentando nos livrar dos sentimentos, suprimindo-os, ou tentando pensar em um jeito de como sair deles. Entretanto, o que resiste, persiste, e “acabamos nos perdendo em comparações de como gostaríamos de estar. Vivendo quase que totalmente dentro de nossas cabeças. Perdemos o contato com o mundo, com as pessoas ao nosso redor”. É o estado chamado “ruminativo”, em que pensamos em ciclos, “em padrões de pensamentos que só nos levam para baixo, de novo e de novo e respondemos com as mesmas ações que nos trazem os piores sentimentos”. Essa é a anatomia da depressão.

“Não é o humor que nos derruba, mas sim como lidamos com ele. Nossos esforços em nos salvarmos, na verdade, nos mantêm presos na dor da qual estamos tentando nos livrar.” E foi exatamente aí que os psicólogos, Segal, Williams e Teasdale descobriram que a meditação Mindfulness poderia nos levar a uma nova relação com nossa mente. Ensinando-nos a deixar os arrependimentos do passado e as preocupações do futuro e a concentrar no momento presente, quebrando assim o ciclo da ruminação.

Eles criaram, então,  a MBCT,  Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness, cujo grande estudo se mostrou eficaz na redução em 50% de recaídas em pacientes que já tiveram dois ou mais episódios de depressão.  (A depressão recorrente tem alta taxa de recaída - até 80% de recorrência após dois episódios.) O livro “The mindful way trough depression” torna essa abordagem acessível a qualquer pessoa leiga interessada. Com uma linguagem acessível, empodera o paciente a aprender e aplicar suas técnicas num curso proposto de oito semanas. CDS de meditações guiadas acompanham a publicação – lamentavelmente ainda não traduzida para o português.


 

Um pouco sobre a técnica Mindfulness


A técnica da Consciência Plena nos leva a focar em nossas sensações corporais. “Quando nos perdemos em pensamentos e tentamos nos livrar dos sentimentos, prestamos muito pouca atenção ao nosso corpo. Entretanto essas sensações corporais nos dão um feedback imediato do que está acontecendo com nosso estado mental e emocional.” E eles podem ser a chave para nos livrar da depressão. Pois se focando nessas sensações, não só paramos de “ruminar” sobre o passado e futuro, como podemos mudar nossas emoções.

Para isso o programa usa a meditação conhecida como Escaneamento Corporal, onde a pessoa se concentra detalhadamente em cada parte de seu corpo. Tomando consciência de como ele realmente está no momento e não como gostaríamos que ele estivesse. Isso pode nos ajudar, por exemplo, a aceitar uma dor ou desconforto ao invés de começar uma briga mental com “o porquê de estarmos com essa dor nesse momento”.

Utiliza também a Meditação da Respiração, onde tomamos consciência da respiração acontecendo em nosso corpo, momento a momento. É claro que nesse processo pensamentos virão. Sem problema. É só reconhecer que apareceu um pensamento e voltamos a nos focar na respiração. E se aparecerem emoções boas ou ruins, ao invés de mudá-las, abraçá-las com aceitação e sem julgamento. “Ficar com nossas emoções indesejadas sem torná-las piores pode parecer impossível, pois caímos tão facilmente em aversão. Entretanto, um gesto intencional e consciente que paradoxalmente abrace o que nós mais tememos, pode ser um ato poderoso de libertação.”

Já a Meditação do Movimento se utiliza de exercícios físicos de yoga com atenção plena no corpo. E, se surge uma área de desconforto, usamos a respiração como veículo para trazer consciência à região. “Com curiosidade e gentileza nós exploramos o que há aí: as sensações físicas e sentimentos, vindo, indo e se transformando. Tudo bem, o que quer que seja já está aqui. Às vezes, simplesmente reconhecendo o que está acontecendo, ao invés de brigar com o que “deveria” estar acontecendo é tudo o que se precisa para transformar nossa experiência nesse momento.”

O programa também ensina a Prática Informal, onde a pessoa toma total consciência do que está fazendo no momento em que está fazendo. Como ao escovar os dentes, por exemplo, ou ao comer e saborear uma refeição. Lembrando que “a intenção do Mindfulness não é forçar o controle da mente, mas perceber claramente seus padrões saudáveis e nocivos”.

“Nós estamos sempre explicando o mundo para nós mesmos e reagimos a essas explicações mais do que aos fatos em si.” O Mindfulness nos ensina que “podemos cultivar um novo relacionamento com nossos pensamentos. Deixando-os simplesmente estarem aqui, ao invés de analisá-los, tentando descobrir de onde eles vieram ou tentando nos livrar deles. Com consciência nós os vemos como eles são: construções, criações misteriosas da mente, eventos mentais que podem ou não refletir a realidade. Nossos pensamentos não são fatos”. Dar-se conta disso é libertador.
   

* Os trechos em aspas são trechos do livro traduzidas por mim.

The Mindful Way Through Depression: Freeing Yourself from Chronic Unhappiness. Mark Williams, John Teasdale,  Zindel Segal e Jon Kabat-Zinn (273 páginas)

Edição Kindle