12 de nov de 2009

A sala de almoço não fala, mas Jane B, sim

Um livro recém lançado por uma estreante de 78 anos vem causando frisson no meio literário. Trata-se do Dom Aquino, 732. O título é uma referência ao endereço da casa onde nasceu a protagonista da história, Anna e também alterego da autora, Jane B. Seu texto possui um estilo refinado de prosa fluente, bem humorada e irônica que, em certos momentos, lembra o de Gabriel García Marquez e Isabel Allende. A novela narra a saga de uma família repleta de mulheres, que começa na cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul na década de 1930 e com o passar dos anos desemboca em diversas cidades do Brasil e exterior acompanhando a vida dos personagens.


Segunda filha de um fazendeiro, seguida por seis irmãs (só o primogênito era homem), Anna se muda na juventude com os pais para o  Rio de Janeiro e ao se casar finca raízes no bairro de Ipanema onde vive até hoje. Seu apartamento se torna ponto de encontro da família e Anna, tia querida e confidente dos 25 sobrinhos e tantos outros sobrinhos-netos.

 “Se essa sala de almoço falasse...”, é uma frase da história, um comentário de uma das sobrinhas netas que presenciou tantos segredos compartilhados naquele canto especial da casa. Segredos esses que Anna, “uma velhota de 78 anos, lúcida a ponto de andar pela casa carregando nos ombros o fantasma de sua caturrita, Tula, que pensava que era cachorro e avançava nas visitas indesejáveis e aparecera, anos antes, em seu apartamento de Ipanema com a asa machucada e fora adotada”,  resolve publicar em um livro de memórias – suas e dos outros – surpreendendo a toda família, como descreve a própria autora.

E na vida real a surpresa não foi menor. A primeira polêmica ao redor da obra surgiu quando o ex-marido de uma das sobrinhas, que não quer se identificar, acusou Dona Jane de senilidade e falta de compostura. “É um absurdo ela escancarar a vida das pessoas desse jeito. Eu deveria processá-la. Me senti diretamente atingido apesar de ela ter mudado meu nome.” Ainda segundo o ex-agregado, vários parentes se viram traídos pela idosa, mas devido às suas condições mentais resolveram não se pronunciar.

A irmã mais nova e temporã da família, Martha Baptista, rebate.  “Jane nunca disse que as histórias são verdadeiras. É ele mesmo que, ao contestar o livro, está se delatando.” Martha que também é escritora e premiada jornalista afirma ter ela própria se surpreendido com o feito da irmã. Mais pelo fato de Jane, apesar de formada em letras, nunca ter mostrado aptidão para a escrita. “De certa forma é até uma ironia. Numa família de mulheres apaixonadas pela escrita, ela que passou a vida revisando nossos textos (até publiquei uma crônica sobre isso não faz muito tempo) lança uma obra com essa qualidade e alcança esse sucesso todo a essa altura da vida.”

A sobrinha e também escritora, Bernadete Piassa, que há 20 anos mora nos Estados Unidos, tem diversos contos publicados na terra do tio Sam e, atualmente, edita de lá a versão brasileira do site de literatura Agonia, também comemora a proeza da tia. “Ela sempre foi especial. Em seu último aniversário fiz uma homenagem para ela em meu blog contando um pouco de sua história. E jamais poderíamos imaginar que ela estava quietinha em seu canto escrevendo uma obra-prima. De certa forma falando de todos nós. E com tanta maestria.” 

“Rasgação de seda” e “lavagem de roupa suja” à parte a maior surpresa de todas, entretanto, é certamente os elogios de alguns renomados críticos brasileiros que veem no texto de Jane B. “um estilo refinado e uma sensibilidade profunda sobre a condição humana”. Carlos Lima chegou a dizer que ela tem fôlego para se inserir na melhor tradição do gênero no Brasil. E Eliana Chaves afirmou em entrevista recente que Jane B é a maior revelação da literatura latina dos últimos anos.

Dom Aquino, 732  já está sendo traduzido para o espanhol, italiano e francês e é cotado para o Prêmio Jabuti na categoria de melhor novela. Em resenha publicada no jornal O Globo, o jornalista e crítico literário, Fernando Julião, depois de elogiar a obra e apostar que se tornará em breve um best seller cometeu o deslize de dizer: “Só é uma pena que Jane B tenha iniciado sua carreira tão tarde.” A anciã escritora que se recusa veementemente a dar entrevistas e posar para fotografias fez questão de responder ao jornalista uma carta de próprio punho com sua firme letra: “Tarde já vai o senhor para as masmorras do inferno. Pois eu ainda tenho muitas histórias para lembrar, livros para escrever e pretendo ficar nesse planeta até os cem.”

6 comentários:

  1. Poxa... bacana demais encontrar vc nesse mundinho virtual!! Grande advento essa internet... aproxima um mundo inteiro e quem nos é muito caro. Emocionante.

    E que exemplo hein? A hora de exercitar um talento nunca passa... Inspirador mesmo. E interessante perceber que há coisas que são de família, não?
    O talento é um grande exemplo.


    Obrigada por compartilhar tanta coisa importante conosco!...

    Luz por esses dias.

    beijos..

    Aliene Cássia

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  2. Gostei de saber do livro em questão, principalmente pelo fato de ser escrito pela primeira vez por uma mulher de 78 anos de idade. Fico feliz quando uma pessoa idosa surpreende ao aprender a ler e escrever, a fazer uma faculdade, etc. Isso é um estímulo para eu chegar na terceira idade sem pensar que já fiz tudo na vida, não ficar quieta e nem esperar a morte bater na minha porta.

    Quando o primeiro parágrafo deste post diz que a história começa em Corumbá, logo pensei: "Deve ter parentes da Valéria neste livro!". Gostei de saber que a autora é sua parente. Que bom que na sua família há muita gente que gosta de ler e escrever.

    Transmita os meus parabéns à autora do livro. Também dou parabéns para você por me dar conhecimento sobre a existência do livro "Dom Aquino 732" que pretendo ler.

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  3. Lu, na verdade esse livro não existe. O texto foi um exercício da pós-graduação em Criação Literária
    que estou cursando. O objetivo era, justamente, criar pistas falsas que levassem a acreditar que o livro era real. Pelo jeito consegui... risos.

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  4. oi eu sou a fernanda do Tocantins adorei seu livro, por que vc nao fico com o doutor anjo... mesmo assim vc e uma grande mulher vencedora

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  5. oi sou a juliana de palmas tocantins gostei muito do seu
    livro,voce e uma mulher de garras.te desejo toda felicidade do mundo...

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