23 de dez. de 2009

Um ipê-amarelo de natal



Em setembro como todos os anos os ipês-amarelos do meu bairro florescem. E eu saio caminhando feliz, admirando um por um de diversos ângulos. Do lado de cá contra o sol, mais para ali a favor, bem de perto tocando seu tronco,  emoldurado com o azul do céu, de longe do final da rua... De qualquer jeito ele é minha árvore preferida. Suas flores amarelas brilham tanto que parecem acesas. Até caídas na calçada, já meio amassadinhas, ainda soltam faíscas. E como são macias.

Mas sei que logo toda essa exuberância passa. Os delicados cones cor de ouro se desprendem e mais um dia ou outro tudo é varrido do asfalto. E meus ipês ficam pelados e invisíveis pela cidade. Por isso, naquela curta e infinita semana de florescência tenho de ir de novo e de novo visitá-los com um misto de êxtase e saudade. Num certo dia até pego minha câmera e fotografo-os querendo roubá-los para mim. Mas não basta. Queria todos aqui para sempre abrilhantando meus caminhos.

Imagino, então, meu bairro eternamente assim: todo em amarelo. Será que daria o mesmo efeito o êxtase sem a pontada de saudade? Será que não me acostumaria tanto a vê-los floridos, que não mais me causariam deslumbre?

Quando meu ex-marido austríaco veio morar no Brasil, fascinou-lhe a grama sempre verde. “Nossa, fica assim verdinha o ano todo?” Eu ri. Esperava que fosse azul? Só entendi seu encantamento quanto fui morar na Áustria. No inverno congelante a neve branca cobria os campos, parques, jardins. Restavam apenas os galhos das árvores magrelos apontando para o céu como que pedindo para não serem esquecidos também. E quando a neve derretia deixando à mostra a terra enlameada não havia sequer um fiapinho de grama para sussurrar a história do verão passado.

Era preciso esperar a primavera. Só mesmo em maio, num esforço tremendo, começavam a despontar aqui e ali um verdinho tímido, mas com a força dos que ressuscitam. E que lindo era o espetáculo das cores finalmente voltando após três meses de puro branco. As árvores se vestindo de folhas, vaidosas como se fossem a uma festa. As flores desabrochando suas pétala num espreguiçar gostoso depois do sono profundo. E a grama correndo como louca, brincando de pega-pega.

Sim, talvez os ipês-amarelos não sejam perenes sabiamente. E agora em dezembro, esse mês arrastado e com cheiro de fim, em que colocamos em casa um pinheiro enfadonho, enfeitado com bolas gritantes, laçarotes vermelhos e rodeado de presentes vazios, volto a pensar no ipê florescido e a saudade faz surgir uma idéia amarela. E se o ipê fosse nossa árvore de natal?

13 de dez. de 2009

Quem é vivo sempre envelhece

Outro dia um amigo me fez lembrar de um episódio da adolescência. Uma catástrofe na minha, até então, curta vida. Após inúmeros testes, não fui escolhida para ingressar na escola de teatro mais cobiçada do país. Que dor! Tive a nítida sensação que minha existência, se não findada ali mesmo, seria afetada pelo episódio para o resto dos meus dias.

E a desilusão do primeiro amor? A constante luta para ser aceita pelos amigos, as brigas com os pais, as aulas da auto-escola? A gravidade da juventude, apesar da deliciosa cara de pêssego e coxas firmes, parecia demasiada.

Como é bom ter sobrevivido a tudo isso e poder rir dos fatos. Os ossos se tornaram mais porosos e as dores musculares constantes. Mas o peso dos anos de certa forma compensa. Principalmente quando se pode virar para o passado e sentir um riso que se desprende da barriga, sobe pelo esôfago como uma bolha de sabão e pipoca nos lábios.  As rugas que se formam ao redor da boca, nesse caso, são muito bem vindas.