Era um chinês humilde. Pediu licença com seu jeito de camponês e parou a meu lado. Ficamos na soleira da casa protegidos da chuva. Olhei seu corpo magro, olhos espremidos, cabelo espetado. De repente me pareceu familiar. Lembrei do livro que trazia em baixo do braço, A estirpe do dragão. Uma imagem estranha me pingou. Seria ele um personagem daquela história?
Eu havia ido ao sebo já sabendo o que ia buscar. Mas o casarão antigo parece que tem poderes. Me arrasta por seus corredores escuros de estantes atoladas. Sempre mais um título a descobrir, uma página amarelada para folhear. Meus dedos já estavam negros de pó quando ouvi o primeiro estrondo. Trovões fazendo crateras no céu. Em seguida a chuva. Melhor me apressar.
A velha escadaria de madeira resmungou quando sentei no degrau. A prateleira dos autores orientais fica bem na curva. Volumes antigos, lidos, relidos, também pelas traças: A boa terra, Os Filhos de Wang Lung, Casa Dividida, Aldeia ancestral, A imperatriz... Todos de Pearl S. Buck, prêmio Nobel de Literatura. Filha de missionários americanos, ela cresceu na China. E eu queria ser levada, mais uma vez, para aquela zona rural do início do século XX. Sentir o cheiro de terra, andar pelas plantações de arroz. Conhecer pessoas simples de pouca fala, que tanto expressam sobre nossa esquisita existência.
Paguei ao dono do sebo e fui para a saída. Um rio corria pela rua. As árvores rebeldes, os carros estancados. Mais um estrondo e as luzes se apagaram. Foi quando surgiu o senhor oriental, molhado, carregando um guarda-chuva estropiado. Pediu licença e entrou no casarão para se proteger da água. Esperamos juntos a última nuvem se derreter. Então ele meteu os chinelos na poça. Antes de seguir, sorriu e me deu até logo. Abri meu livro e ali estava, na primeira página. Trabalhando em seu arrozal.
