18 de ago de 2010

Artigo meu publicado no Diário de S.Paulo


Tinha que ser um negro

Estou atrás da linha amarela como manda o aviso, aguardando minha vez. O funcionário da polícia federal americana me chama e eu lhe entrego o passaporte. Ele sorri, porém, noto estar mais interessado em minhas unhas.

– Verde? Essa eu não conhecia – diz ele, com o sotaque cantado de afro-americano sulista enquanto confere meu visto em uma máquina ultramoderna.

– Gostou da cor? – pergunto.

Ele ri e diz: – Muito original, ma'am. Mas e aí, o que veio fazer nos Estados Unidos?

– Visitar uma amiga. Estou de férias.

– Quanto tempo vai ficar?

– Um mês.

– Faça uma boa viagem, então, ma'am. – E, em seguida, me devolve o passaporte.

Essa foi a quarta vez que fui aos EUA. E a primeira que não me senti como uma criminosa ao entrar no país. Até janeiro desse ano, o governo americano proibia a entrada de pessoas com HIV/Aids em seu território. Não que eu tenha deixado de ir outras vezes, pois, na verdade, ninguém nos perguntava se tínhamos o vírus. Nem no formulário do visto constava tal pergunta. Mas o fato é que, em tese, éramos proibidos de entrar no país. E se fossemos "pegos", seríamos convidados a nos retirar dos EUA.

Para alguém que não cometeu crime algum, essa situação era bastante desagradável. E o alívio que senti ao viajar por lá, acredito poder ser comparado ao dos negros quando passaram a ser tratados, nos EUA, como seres iguais. Quando, finalmente, puderam frequentar as mesmas escolas que os brancos, tomar água no mesmo bebedouro, sentar no mesmo assento do ônibus, nadar na mesma piscina...  Por essa razão, não posso deixar de pensar que só mesmo um presidente negro, que sentiu na pele esse tipo de discriminação, para rever essa proibição aos HIV positivos, que já vigorava há 22 anos.

"Nós lideramos o mundo no que se refere a ajudar a conter a pandemia de Aids, mas, ainda assim, somos um de apenas uma dúzia de países que ainda impedem as pessoas com o vírus HIV de entrar no nosso território", disse Barack Obama em outubro de 2009 quando anulou a lei. Ele afirmou ainda que a proibição da entrada de pessoas com HIV estava "baseada no medo, e não nos fatos."

Em 1993, quando eu estava estudando na Califórnia perguntei a um médico o motivo de tal proibição. "O governo tem receio de que soropositivos estrangeiros sobrecarreguem nosso sistema de saúde", explicou ele. E, nos últimos anos, enquanto o Brasil se tornava referência no mundo com seu programa de tratamento da Aids, eu me perguntava do que os EUA realmente tinham medo se nem um sistema de saúde como o nosso SUS - que atente a todos sem qualquer restrição e distribui gratuitamente os medicamentos para o HIV - eles têm.

O que, na verdade, existe nos EUA são seguros de saúde particulares. Entretanto, muita gente que recebe baixos salários ou está desempregada não consegue pagar. Para esses casos há o Aids Drug Assistance Program, um serviço do governo que distribui o coquetel anti-aids para pessoas de baixa renda. No ano passado, mais de 168 mil pessoas receberam medicamentos por meio desse programa.  Mas a lista de espera vem aumentando. Segundo a Aids Healthcare Foundation, no mês de julho, havia mais de duas mil pessoas aguardando pelo coquetel em 12 estados americanos.

De acordo com estatísticas do U.S. Centers for Disease Control and Prevention, 1,1 milhão de americanos vivem com o HIV no país e outros 56 mil se infectam a cada ano. No dia 13 de julho, coincidentemente o dia em que eu chegava a Washington, o presidente se reunia na Casa Branca com especialistas para conversar sobre uma estratégia destinada a reduzir novas infecções e aumentar o número de tratamentos.

Jornais americanos ressaltaram as opiniões de Obama, tão diferente do último presidente. Ele defende a responsabilidade do governo em aplicar a lei de não discriminação e deixa claro que a educação sobre a transmissão do HIV é essencial para combater o estigma. A nova estratégia pretende redirecionar alguns dos US$ 19 bilhões que o governo federal gasta anualmente em programas nacionais de Aids para áreas onde a vulnerabilidade é maior, como nas comunidades de negros, latinos, usuários de drogas injetáveis e homens homossexuais e bissexuais.

Não me encantei pela cidade de Washington. Exceto pelos museus, achei o aspecto geral conservador e monótono. Mas me emocionei quando passei pela frente da Casa Branca e imaginei ali dentro o presidente negro que se dignou a nos defender.

Artigo publicado no jornal Diário de S. Paulo em 18/08/2010. 
Para acessá-lo na página do jornal clique aqui.

8 comentários:

  1. Oi VAléria,

    É sempre bom ler seus textos. Há um tempo, assisti ao programa Ao ponto, de Jairo Bouer, e fiquei encantada com o seu modo de falar com a galera. Gostaria de saber se vc está dando palestras, pois meus alunos estão lendo seu livro e percebi q sao mt desinformados a respeito da Aids.Favor, entre em contato.
    Cíntia
    tintiamaia@hotmail.com

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  2. NAÕ ACEITE!

    Sei que não me conhece, mas eu fico tão feliz por você.

    Fico feliz ao saber que seu trabalho é reconhecido. Você ter uma doença, não se calar, e ainda ajudar pessoas (com a mesma doença ou não, como eu) a superar suas dificuldades reais e/ou da imaginação.

    Me mande qual é seu E-Mail, por favor. Quero muito falar com você, mas por aqui não tem como. É algo muito pessoal.

    Beijo grande querida.

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  3. Oi Valéria!
    É sempre bom ler seus textos. Há um tempo, assisti ao programa Ao ponto, de Jairo Bouer, e fiquei encantada com o seu modo de falar com a galera. Gostaria de saber se vc está dando palestras, pois meus alunos estão lendo seu livro e percebi q sao mt desinformados a respeito da Aids.Favor.
    INTAUM...eu sou um desses alunos...que a Profª Cítia falou ai no texto....gostaria muito que você fosse nos dar uma palestra...a Cíntia mostrou uma palestra que você fez em um programa e a minha sala ficou muito animada....portanto iniciamos uma campanha!!
    Váleria vem pro ZEZÃO! - o colégio onde estudo( Colégio Cenecista Dr. José Ferreira...)
    Esperamos você!
    ADD: saulo_roza@hotmail.com

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  4. Oi Valéria!!
    É sempre bom ler seus textos. Sou aluna da professora Cíntia e ela me mostrou sua participação no programa Ao ponto, de Jairo Bouer, também vi o depoimento que você deu na novela Viver a Vida e fiquei encantada com o seu modo de falar com a galera. Gostaria de saber se vc está dando palestras, pois já li seu livro duas vezes e seria muito bom ouvir vc falando sobre a Aids. "Váleria vem pro ZEZÃO!" - o colégio onde estudo( Colégio Cenecista Dr. José Ferreira...)
    Esperamos você!
    daninhalima44@yahoo.com.br

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  5. oii
    meu nome e thaynara eu ja li seu livro muitas vezes, acho muito interessante...
    teria como vc me mandar seu email, queria muito falar com vc. meu email é: thaynara-araujo23@hotmail.com
    por favor me manda seu email

    bjim

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  6. Oi Valéria!
    Parabéns por sua posição inconformista perante situações tão absurdas quanto esta. Você faz parte deste contexto de mudança de valores, que infelizmente ainda transita tão devagar. Pra quem ainda é vítima de preconceito, a época em que negros não votavam ou eram escravizados não parece tão longe assim. Ainda somos bactérias perante a amplitude que poderíamos ser, mas temos a consciência tranquila de fazer a nossa parte para mudar.
    Não sabia desta lei nos EUA, mas felizmente esse presidente faz coisas boas. Há pouco tivemos a notícia oficial do fim da guerra no Iraque e agora isso. Atitudes óbvias pra quem espera um mundo melhor

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  7. Oie VALÉRIA..
    Noossa acabei de ler seu livro e ja quero ler novamente..viajei em cada palavra que vc disse!!
    Parabéns pelo seu exemplo de vida!! Vc é uma grande mulher..

    bjos

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  8. Estou adorando seu livro " Depois daquela viagem"
    Tenho 13 anos e seu livro é um exemplo de vida Parabéns
    beijos

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