Tenho recebido muitos e-mails e mensagens de leitores da Venezuela, Colômbia e Peru. Meu livro Depois daquela viagem — diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com aids foi traduzido para o espanhol com o título ¿Por qué a mí?. E vem sendo adotado em escolas para abordar o tema entre os adolescentes latino-americanos. E torço para que surja um convite para eu dar palestras nesses países.
Enquanto aqui no Brasil, desde 1997, os soropositivos têm acesso gratuito e universal aos medicamentos — ou seja, sem a necessidade de vínculo empregatício ou seguro social — lá as instituições de seguro é que disponibilizam os anti-retrovirais. A Secretaria da Saúde mexicana também distribui a medicação, embora não consiga atender a todos. Um garoto soropositivo que conheci em Querétaro me explicou: “Quem quer medicamento tem de correr atrás. Mas por falta de informação e por a doença ainda estar sendo muito associada com a morte, muitos não procuram tratamento.” As populações afastadas dos grandes centros urbanos são as que mais sofrem com essa realidade.
Em minhas palestras os jovens se surpreendiam com meu bom estado de saúde, já que tenho o vírus desde 1987. E o fato da aids estar sendo tratada aqui como uma doença crônica lhes parecia inacessível. O México não teve uma referência forte de pessoa pública com o vírus que servisse de referência nacional. Como nós tivemos, por exemplo, o Betinho, Cazuza e Sandra Bréa, que nos ajudaram a assimilar a doença em nossa própria cultura. E quando a imagem real de um soropositivo é ausente, a doença acaba se tornando muito pior no imaginário da população.
A cultura mexicana, bastante conservadora e machista, além de extremamente religiosa, também acaba reforçando muitos preconceitos em relação ao HIV. Os ativistas reclamam da falta de informação, da carência de políticas públicas mais eficientes e, principalmente, da não aceitação dos homossexuais pela população. Eles também relatam que muitos trabalhadores ainda são despedidos de seus empregos por terem o vírus, embora isso seja proibido por lei. Mas, para não se exporem, acabam não buscando seus direitos.
Em 2008 fiz uma viagem ao Peru, dessa vez de férias e para estudar espanhol. Conheci Cuzco e Machu Picchu, lugares de sonho para qualquer mochileiro. E também pude observar que o país ainda sofre muito com a desinformação e preconceito em relação à aids. Uma estudante de enfermagem me contou que “As pessoas que têm essa doença estão morrendo por falta de tratamento.” E uma de minhas professoras me disse que nunca tinha visto um soropositivo e não sabia se teria medo de tocá-lo. Claro que, quando fui embora, deixei um livro meu para ela.
Fotos:
1 - Em cima da Pirâmide do Sol em Teotihuacan, com meus amigos mexicanos
2 - Palestra em Atlacomulco no Estado do México
3 - Alunos no auditório de palestra na Cidadedo México
4 - Machu Picchu
4 - Machu Picchu



