18 de mar de 2011

Valéria Polizzi está viva?


Dando uma busca no Google por meu nome, uma das primeiras coisas que aparecem é essa pergunta no Yahoo respostas: “Valéria Polizzi está viva?” No Orkut em comunidades do meu livro Depois daquela viagem, a mesma coisa. Quando apareci dando um depoimento na abertura da novela Viver a vida, em 2009, recebi e-mails carinhosos de leitores: “Valéria, você ainda está viva, que legal!”


 Markus e eu na Áustria 2010

Contei isso a uma médica e ela se assustou. “Nossa, como se eles esperassem que você já tivesse morrido.” Sim, se pararmos para pensar, ninguém comentaria se visse Paulo Coelho hoje na TV: “Nossa, ele está vivo!” Alguém por acaso reencontra um antigo amigo no Facebook e escreve, “Cara que de mais, você ainda vive!” Só se fosse de gozação, né?

Mas no meu caso, sinceramente não me surpreendo nem me incomodo. Sei que a aids foi por muito tempo associada com morte e que as pessoas se surpreendem sim de reencontrar alguém bem, vivendo com o vírus há mais de 20 anos. Mas será que depois de 14 anos da descoberta do coquetel e há tempos os médicos repetindo que ela se tornou uma doença crônica, esse pensamento já não deveria ter mudado?

É claro que ainda se morre por causa da doença. Em muitos países a população não tem acesso gratuito à medicação como no Brasil. E mesmo muitos brasileiros, que têm os remédios à mão, os deixam de tomar por conta própria, ou não os tomam rigorosamente todos os dias, como deve ser.

Se manter vivo com o HIV não é tão fácil como com qualquer outra doença crônica. Passamos por estresses diários, remédios, constantes consultas médicas, exames, cuidados com alimentação, exercícios físicos, efeitos colaterais, depressão... Mas estamos aí para provar que é possível.

Entretanto, ainda hoje, ao receber o resultado HIV positivo, é na morte que muitos pensam. Ano passado um jovem de classe média-alta (ou seja, com acesso à informação) me mandou um e-mail desesperado. Ele havia descoberto há poucas semanas que estava com o vírus, não queria se abrir com a família, tentou suicídio, abandonou o último ano da faculdade de Direito e largou o emprego.

“Parei de ir às aulas por me sentir um zumbi a espera do fim. A sensação é de que nunca mais serei plenamente feliz, como se minha vida estivesse manchada para sempre”, ele me contou. Conversamos muito e não pude deixar de dizer que, para mim, passar por isso em pleno século 21 parece uma enorme perda de tempo – ainda que totalmente compreensível.

Em 1989 quando recebi meu resultado aos dezoitos anos de idade, não havia remédios eficazes. Aí sim congelávamos nossas vidas. Mas com a chegada do coquetel, tivemos de correr atrás dos projetos e sonhos não realizados. E, cá entre nós, olhando para trás vejo o quanto consegui realizar.

Eu que largara uma faculdade aos 20, por achar que não daria tempo de concluí-la, mais tarde retomei e fiz até pós – graduação. Publiquei outros livros. Dei palestras por todo o Brasil e no México. Viajei muito por esse mundo. Aprendi mais quatro línguas: inglês, espanhol, alemão e dialeto austríaco. Saltei de pára-quedas, fiz curso de mergulho, paguei minhas contas. Curti minha família e amigos. Casei, me separei, voltei com meu marido, e como qualquer outro casal, não sabemos o que acontecerá no futuro. Aproveitamos então o presente.

É claro que nem tudo são flores e nesses anos todos houve períodos de grave depressão. Tomo diariamente de 9 a 12 comprimidos, entre coquetel, antidepressivos... Tenho que ter cuidados com a alimentação, praticar exercícios físicos... Mas é possível ter qualidade de vida. E, sim, estou viva, e em fevereiro completei 40 anos.

Quanto ao rapaz que me mandou o e-mail, depois de alguns meses ele voltou a sorrir. Retomou a faculdade e está fazendo terapia. “Continuo com as mesmas ambições, mas agora há outros aspectos mais importantes. Quero ficar perto da minha família, ser menos exigente com as pessoas e mais carinhoso.” Bem vindo de volta à vida, garoto!