27 de jul. de 2010

Essas mulheres modernas


Uma vez recebi um e-mail de uma leitora perguntando o que tinha acontecido com minha amiga Priscila. No meu livro Depois daquela viagem eu conto que, aos 20 anos, ela estava num dilema. Trabalhava num lugar que odiava, embora ganhasse bem. Mas tinha passado num teste de uma empresa de auditoria, a área de seus sonhos. Só que nesse novo emprego trabalharia o dobro e ganharia a metade. O que fez a Pri, afinal? Perguntava a menina.

Bem, a Priscila ouviu seu coração, se tornou uma auditora da Ernst & Young, onde trabalhou por 11 anos. Depois foi pra Coca-Cola e por três anos fez a volta ao mundo trabalhando em várias filiais da empresa. Eram dois meses em cada país e os fins-de-semana livre para viajar. Trabalhou na China, Japão, México, Suazilandia, Índia, Alemanha, Áustria, Suiça, Itália e conheceu ao todo 33 países e 180 cidades. E eu, claro, recebi postais e lembranças de muitos deles. Porque amizade boa é assim mesmo, até de longe continua presente.



Hoje minha amiga se estabeleceu em Atlanta, um dos lugares que estou visitando nos EUA. Ela tem uma cachorrinha fofa, a Dibs, da raça havanes que, aliás, é a mesma do meu, o Mozart. Fui eu que fiz a maior campanha pra ela pegar uma filhinha. E tinha de ser do reino animal! Pois afinal não são eles que nos deixam mais humanos?

Inclusive Dibs está nesse exato momento mordendo e sacudindo o Cabeção, sua pelúcia preferida, para chamar minha atenção e me tirar do computador. Seus olhinhos de jabuticaba e seu rabo sorridente é um convite para o bom humor.

Priscila, hoje com 39 anos, está feliz da vida. Tem orgulho de sua carreira, sua trajetória de vida. Mora numa bela casa, se sustenta sozinha,vive rodeada de amigos, visita sempre a família no Brasil e no fim-de-semana vamos curtir uma praia nas Bahamas.

E pensar que, há menos de meio século, o máximo que a maioria das mulheres poderia sonhar era com um bom marido, uma casa cheia de filhos e um avental na cintura... Nada contra. Mas como é delicioso ter opções!

21 de jul. de 2010

Só mesmo um negro


Estou de férias nos Estados Unidos. Essa é a quarta vez que venho, mas a primeira que não me sinto mal ao entrar no país. Até janeiro desse ano, o governo americano proibia a entrada de pessoas com HIV/aids. Não deixei de vir das outras vezes, já que ninguém nos perguntava se tínhamos o vírus. E essa pergunta também não constava no formulário do visto. Mas a verdade é que éramos proibidos de entrar no país.

Durante os 22 anos que essa lei vigorou, recebi e-mail de alguns outros soropositivos que queriam estudar ou passear nos EUA e também tinham receio. E se na entrada revistassem nossa mala e pegassem nossos remédios para o HIV? E se fôssemos “convidados a nos retirar”? Nunca soube de um caso desses. Mas ainda assim, era um constante estresse.

E qual foi o único presidente que se preocupou em banir a tal lei ?  Barack Obama, claro.

Pensando na história deste país chego a conclusão que só mesmo um negro para mudar uma lei absurda como essa. Só mesmo uma pessoa que já tenha vivido o preconceito na pele para se preocupar com tal situação. Uma pessoa que se vivesse nos EUA há alguns anos atrás, seria obrigado a se sentar no fundo do ônibus, seria proibido de estudar em escolas de brancos e de frequentar os mesmo lugares que eles.

Valeu, Obama! Minhas férias estão sendo ótimas. E muito, graças a você.