25 de ago. de 2010

Um mestre com carinho

Nunca esqueço de um texto que li há muitos anos numa aula de inglês. Era a história de um menino, filho de imigrantes mexicanos, que tinha problemas em sua escola nos EUA. O garoto estava fadado ao insucesso, até o dia que uma certa professora  cruzou seu caminho. Ao invés de humilhá-lo perante a turma, ressaltando seus erros como as outras faziam, esta usou a simples tática de incluí-lo. Descobriu um jogo no qual ele era o melhor da turma, aumentando assim sua auto-estima.  Isso fez com que ele se interessasse pelas aulas e quisesse aprender. E só para concluir a história, o garoto tomou gosto pelos estudos, se tornou doutor em pedagogia e era ele mesmo quem assinava o tal texto.

Todos tivemos um professor que foi um divisor de águas em nossas vidas. Aquele que conheceu a fundo nossa individualidade, nos motivou, foi peça fundamental em nossa formação. Felizes daqueles que passaram por mais de um desse seres especiais. A arte de ensinar é para poucos. Mas é fácil reconhecer um genuíno mestre. Seus olhos brilham ao andar na frente do quadro-negro, falando e expondo seu conhecimento. Seu entusiasmo transborda, contagia os alunos, que se tornam esponjas querendo absorver tudo.

O verdadeiro educador, entretanto, vai mais longe. Ele sabe que não basta essa absorção. O aluno, além de absorver, tem de traduzir para si e em seguida reconstruir esse conhecimento com base em sua própria experiência. Ele deve conseguir fazer interligações, conexões, para assim encaixar o que aprendeu num contexto. Só então teremos certeza de que ele realmente apreendeu, tomou para si, assimilou. Caso contrário ele terá apenas decorado uma informação. E o objetivo é o de, justamente, dar um valor às informações, transformando-as em conhecimento.

O bom mestre é ainda um constante pesquisador e nunca se sente um absoluto detentor do conhecimento. Inclusive, leva sempre em conta a sapiência prévia de seus discípulos e está aberto a trocas de experiências. Valoriza o diálogo. Mais do que aquele que sabe, ele é o que modera, ajudando seus alunos a compreender o mundo a sua volta. Eu, felizmente, tive a sorte de estudar com alguns desses professores ao longo de minha jornada. E até agora, na pós-graduação, volto a ter esse privilégio.

18 de ago. de 2010

Artigo meu publicado no Diário de S.Paulo


Tinha que ser um negro

Estou atrás da linha amarela como manda o aviso, aguardando minha vez. O funcionário da polícia federal americana me chama e eu lhe entrego o passaporte. Ele sorri, porém, noto estar mais interessado em minhas unhas.

– Verde? Essa eu não conhecia – diz ele, com o sotaque cantado de afro-americano sulista enquanto confere meu visto em uma máquina ultramoderna.

– Gostou da cor? – pergunto.

Ele ri e diz: – Muito original, ma'am. Mas e aí, o que veio fazer nos Estados Unidos?

– Visitar uma amiga. Estou de férias.

– Quanto tempo vai ficar?

– Um mês.

– Faça uma boa viagem, então, ma'am. – E, em seguida, me devolve o passaporte.

Essa foi a quarta vez que fui aos EUA. E a primeira que não me senti como uma criminosa ao entrar no país. Até janeiro desse ano, o governo americano proibia a entrada de pessoas com HIV/Aids em seu território. Não que eu tenha deixado de ir outras vezes, pois, na verdade, ninguém nos perguntava se tínhamos o vírus. Nem no formulário do visto constava tal pergunta. Mas o fato é que, em tese, éramos proibidos de entrar no país. E se fossemos "pegos", seríamos convidados a nos retirar dos EUA.

Para alguém que não cometeu crime algum, essa situação era bastante desagradável. E o alívio que senti ao viajar por lá, acredito poder ser comparado ao dos negros quando passaram a ser tratados, nos EUA, como seres iguais. Quando, finalmente, puderam frequentar as mesmas escolas que os brancos, tomar água no mesmo bebedouro, sentar no mesmo assento do ônibus, nadar na mesma piscina...  Por essa razão, não posso deixar de pensar que só mesmo um presidente negro, que sentiu na pele esse tipo de discriminação, para rever essa proibição aos HIV positivos, que já vigorava há 22 anos.

"Nós lideramos o mundo no que se refere a ajudar a conter a pandemia de Aids, mas, ainda assim, somos um de apenas uma dúzia de países que ainda impedem as pessoas com o vírus HIV de entrar no nosso território", disse Barack Obama em outubro de 2009 quando anulou a lei. Ele afirmou ainda que a proibição da entrada de pessoas com HIV estava "baseada no medo, e não nos fatos."

Em 1993, quando eu estava estudando na Califórnia perguntei a um médico o motivo de tal proibição. "O governo tem receio de que soropositivos estrangeiros sobrecarreguem nosso sistema de saúde", explicou ele. E, nos últimos anos, enquanto o Brasil se tornava referência no mundo com seu programa de tratamento da Aids, eu me perguntava do que os EUA realmente tinham medo se nem um sistema de saúde como o nosso SUS - que atente a todos sem qualquer restrição e distribui gratuitamente os medicamentos para o HIV - eles têm.

O que, na verdade, existe nos EUA são seguros de saúde particulares. Entretanto, muita gente que recebe baixos salários ou está desempregada não consegue pagar. Para esses casos há o Aids Drug Assistance Program, um serviço do governo que distribui o coquetel anti-aids para pessoas de baixa renda. No ano passado, mais de 168 mil pessoas receberam medicamentos por meio desse programa.  Mas a lista de espera vem aumentando. Segundo a Aids Healthcare Foundation, no mês de julho, havia mais de duas mil pessoas aguardando pelo coquetel em 12 estados americanos.

De acordo com estatísticas do U.S. Centers for Disease Control and Prevention, 1,1 milhão de americanos vivem com o HIV no país e outros 56 mil se infectam a cada ano. No dia 13 de julho, coincidentemente o dia em que eu chegava a Washington, o presidente se reunia na Casa Branca com especialistas para conversar sobre uma estratégia destinada a reduzir novas infecções e aumentar o número de tratamentos.

Jornais americanos ressaltaram as opiniões de Obama, tão diferente do último presidente. Ele defende a responsabilidade do governo em aplicar a lei de não discriminação e deixa claro que a educação sobre a transmissão do HIV é essencial para combater o estigma. A nova estratégia pretende redirecionar alguns dos US$ 19 bilhões que o governo federal gasta anualmente em programas nacionais de Aids para áreas onde a vulnerabilidade é maior, como nas comunidades de negros, latinos, usuários de drogas injetáveis e homens homossexuais e bissexuais.

Não me encantei pela cidade de Washington. Exceto pelos museus, achei o aspecto geral conservador e monótono. Mas me emocionei quando passei pela frente da Casa Branca e imaginei ali dentro o presidente negro que se dignou a nos defender.

Artigo publicado no jornal Diário de S. Paulo em 18/08/2010. 
Para acessá-lo na página do jornal clique aqui.

9 de ago. de 2010

O capricho do pêndulo

Outro lugar que visitei nessas férias foi Bucky County, uma região próximo à cidade da Filadélfia (EUA) onde mora minha tia Dete.  Um paraíso bucólico de cidadezinhas espalhadas em meio a muito verde. Casas que parecem de bonecas e um silêncio, um sossego, que me fizeram lembrar os três anos que vivi numa vila austríaca.

Num de nossos passeios comentei com minha tia que toda aquela quietude e falta de gente pra lá e pra cá, depois de um tempo, de certa forma, me incomodavam. Quando eu vivia na Áustria eu sentia falta do burburinho, da arruaça das crianças, e quem diria, até das buzinas dos carros da minha cidade São Paulo.


Agora que voltei pra casa e hoje, segunda-feira, enfrentarei depois de um mês a fervescente metrópole, sento ao meu computador e viajo pelas centenas de fotos que tirei daquele pedaço de faz-de-conta. E já sinto saudade. Meu desejo oscila entre o calmo e o agitado, o perto e o longe, o aqui e o lá, o presente e o passado.