01/06/2010

Português e espanhol: línguas irmãs

Nas palestras no México, sempre utilizávamos um tradutor, já que meu espanhol não estava fluente. Juan Martín ou Laura, me acompanharam por várias escolas. Eu falava uma ou duas frases e parava para que eles pudessem traduzir. E o arranjo que a princípio me pareceu esquisito, funcionou.

Para mim aquela tradução muitas vezes soava engraçada. Parecia que eu dizia algo e logo em seguida ele ou ela repetia a mesma coisa com uma leve variação. Mas Martín garantiu-me que a história de que os falantes da língua espanhola nos entendem menos do que nós a eles é pura verdade. E me deu a seguinte explicação:

Em espanhol o som das vogais são somente um para cada: a, ê, i, ô, u. Já em português nosso a, pode soar também ã; o e pode soar ê, é e até mesmo i; o o pode ser ô, ó ou u. Sem contar nossos ão, ãe, que eles não têm. Só isso já os deixa bastante confusos. Mas ainda temos outros sons como os do g e j, que para eles também não existem; soam como r, como em Juan, que se pronuncia, Ruan. Nosso l nos finais das palavras tem som de u. E nosso s pode ter som de z. Por exemplo, na verdade, dizemos Braziu e não Brassil, como som de s e l ao final, como se escreve e eles pronunciam.


Há também aquelas expressões que parecem ser iguais, mas podem causar uma baita confusão. Se alguém lá diz que a comida está esquisita, não se preocupe, ela está deliciosa. Estranhar a alguém é sentir sua falta. Dar propina é dar uma caixinha. Um pastel é na verdade um bolo. Microfone se pronuncia micrófono, vídeo, vidêo. E quando nós brasileiros dizemos a gente, estamos nos referindo a nós; já em espanhol, la gente, se refere a eles. E se disserem para você como uma professora me disse: “Ai, que lindo, cuantas porras te dieron!”.  Não se assuste, ela está comentando como foi lindo os adolescentes gritando o teu nome na platéia, que aliás, não era Valéria e sim um simpático, Balêria.

Outras pequenas diferenças chamam a atenção para as questões culturais fazendo-nos repensar conceitos. Por exemplo, quando estamos conversando com alguém em português temos o costume de perguntar: entendeu?. Martín explicou que lá é mais educado indagar: Me fiz compreender? Pois lá a responsabilidade de se fazer entender é de quem fala e não de quem ouve.


No México a aids é chamada de Sida, aliás, nada mais certo e lógico uma vez que é a sigla da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. E o HIV, Vírus da Imunodeficiência Humana, é VIH, como se fala também em Portugal e em toda a América Latina. No Brasil, desde que foi descoberta no início da década de 1980 nos Estados Unidos, a doença se espalhou pela mídia com a sigla em inglês; o que foi sempre muito contestado por especialistas de diversas áreas. Mas o fato é que nunca se mudou, porque aqui preferimos falar como os americanos. Ou melhor, como os estadunidenses, como dizem os mexicanos. Pois americanos somos todos nós, povos das Américas.




Fotos:
1- Eu e Martín dando palestra em Texcoco (fev/2007)
2 -Eu e Laura, no hotel em Monterrei, prontas para mais uma escala (fev/2008)
3- Nós três em cima da Pirâmide do Sol em Teotihuacán (jan/2007)


7 comentários:

  1. Oi Valéria
    Como sempre, adorei o seu texto e me deliciei com as explicações sobre os motivos que levam os falantes de língua espanhola a terem dificuldades para entender os de língua portuguesa. Vc nos brindou com uma verdadeira aula. Beijos.

    ResponderExcluir
  2. Oi Valéria,
    Muito interessante mesmo suas explicações. Às vezes a gente se acha o máximo, falando outra língua, e na verdade só está dizendo barbaridades. Admiro muito o trabalho de tradutores que, em geral, são tão desvalorizados. Obrigada por compartilhar com a gente o que você aprendeu.

    ResponderExcluir
  3. Gostei de saber um pouco mais sobre a diferença da língua portuguesa e da espanhola. Não tinha imaginado que para as pessoas que falam espanhol é mais difícil aprender o português. Como disse a Jane, você nos brindou com uma verdadeira aula. Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Olá Valéria!!!

    Seu blog é ótimo!! Parabéns!!!

    A primeira vez que eu li "Depois daquela Viagem" eu era um adolescente inconsequente, então, a leitura me ajudou a analisar melhor a vida e suas dores e alegrias vividas...
    Eu gostaria de entrar em contato com vc por e-mail, teria algum que eu pudesse usar?
    abraço de luz

    ResponderExcluir
  5. DESCOBRI MINHA DOENÇA EM JANEIRO DE 2010 E VC ESTA SENDO SIMBOLO DE ESPERANÇA

    MUITO OBRIGADA E CONTINUE NOS DANDO ESPERANÇA

    ResponderExcluir
  6. Hola! que escrito tan bonito! Me encanto!
    Eu estou estudando a língua portuguesa do Brasil, e é como você diz, nos temos dificultai para entender o português.

    PD: Desculpe meu ruim português.

    Un saludo!! :D

    ResponderExcluir
  7. Muito interessante o texto! Realmente é muito mais fácil nós o entendermos do que o contrário.

    E é triste perceber o quanto nós, brasileiros, temos mania de supervalorizar tudo que esteja em inglês por achá-lo um idioma "chique".

    ResponderExcluir