30 de nov. de 2009

Palavras "mal-ditas"

Essa semana mandei um e-mail com uma lista de palavras politicamente incorretas e suas versões pertinentes para amigos de uma ONG. Em nosso último encontro, onde havia 80 pessoas apresentando projetos para comunidades carentes, alguns desses termos haviam sido empregados. Claro quem sem má intenção.

Como trabalhei com jornalismo social e constantemente discutíamos o peso das palavras pejorativas e a falta de informação dos colegas que ainda as utilizavam, achei importante alertá-los. Expliquei que algumas expressões com o passar do tempo se tornam ofensivas, pois seus significados aglutinam uma série de preconceitos. Sei que algumas delas podem parecer exageradas. Entretanto, quando nos colocamos na pele do apontado dá para compreender porque não custa nada substituí-las.

O primeiro exemplo que citei como não devendo ser pronunciado ou escrito foi a famigerada “aidética” muito usada nos anos 80 e 90 e veementemente contestada por ativistas. Há quem goste do argumento técnico de que AIDS é uma sigla e portanto não há regra na língua portuguesa que acrescente uma terminação às mesmas fazendo-as virarem adjetivos. Já ouviram falar em ONUético? INPSético?

Outros defendem que não se deve colocar a doença à frente da pessoa. Não falamos “aquele canceroso”, por exemplo. E “leproso” foi banido de nosso vocabulário há tempos. Mas dizemos “diabético”, outro pode contestar. E aí para explicar as questões sociais embutidas na aids eu precisaria de outra crônica.

A explicação que me parece mais cabível é que “aidético” passou a ser usado, em muitas ocasiões, como um xingamento, um palavrão – sinônimo de sujo, indesejável, feio. E hoje graças ao coquetel, embora nós que vivemos com o HIV não tenhamos a doença escrita na cara, o adjetivo remete exatamente a esse passado tenebroso. Por que, então, não usar “pessoas que vivem com HIV/aids”, ou “soropositivo”, ou “portador do HIV” e se isentar do risco de ofender alguém?

Outra palavra que causa muita discussão no jornalismo é “menor”, se referindo ao menor de idade. Enquanto alguns a julgam cabível e prática, outros escancaram seu estigma apontando que ela só é usada como sinônimo de “bandido mirim”. Ou será que alguém já ouviu uma referência a um adolescente ou criança de classe média ou alta como “aquele menor”? Alguém escreveria, por acaso, “O menor, Pedro Weissman, estudante da escola Suíço-brasileira acaba de ganhar uma medalha de ouro nas olimpíadas de matemática”?

Há ainda aquelas expressões que condenam os indivíduos a uma categoria permanente quando na verdade poderiam ser apenas temporárias. Por isso alguns defendem o uso do “adolescente em conflito com a lei” a “menor infrator”. E “um indivíduo em situação de rua” a “indigente”, “mendigo” ou “morador de rua”.

E “prostituição infantil”? Será que alguma criança realmente escolhe se prostituir? Ou elas são obrigadas e levadas a isso? O correto então não seria “exploração sexual infantil”?

A última que aprendi e ainda me faz trolinguar é que sempre devemos usar o adjetivo feminino antes de travesti. Ou seja, não é o travesti e sim a travesti, já que ELAS querem ser reconhecidas como mulheres. Difícil, né? Tente então se desprender daquela visão caricata de uma barranqueira de dois metros de altura, maquiagem pesada e salto alto n° 43. Imagine apenas uma moça recatada, de tênis e camiseta, sentada numa roda de costura com agulha e linha à mão aprendendo a fazer bichos de pelúcia na tentativa de arranjar um outro sustento que não o da prostituição.

Pois eu a conheci, a Sandra, quando eu estava fazendo uma série de reportagens no Centro de Referência da Diversidade. E ela me explicou como é humilhante ir a um posto de saúde, preencher uma ficha obrigatoriamente com seu nome do RG e quando a enfermeira chama o Sr. João Pereira se levanta a Sandra e todos se viram e as risadinhas e piadas começam. E por isso elas dificilmente vão a um médico.

É claro que expressões que ferem – ou não, quando já estão tão intricadas em nossa cultura que ninguém ao menos percebe – não são uma característica só do Brasil. Quando estive no México dando palestras, ouvia a toda hora a expressão “Que padre!” (Que pai!). Logo aprendi que era para se referir a algo legal, como “que máximo!”, “que ótimo!”.

Um dia, entretanto, conversando com uma professora, após ela reclamar de um monte de coisas acrescentou: “É una madre!” (É uma mãe!). E quando ela reparou minha cara de interrogação foi logo explicando em meio a gargalhadas: “Aqui no México é assim, tudo que se refere à coisa boa dizemos “que padre”. E ao que é ruim “que madre”. E de repente séria, como se acabasse de se dar conta de algo, acrescentou. “Que raio de país machista!”

24 de nov. de 2009

Uma Busca

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”. O que Tolstói sequer imaginava era que 130 anos depois nossas opções se expandiriam. Principalmente para o sexo feminino. E hoje podemos escolher simplesmente não formar uma. Ao menos uma outra que não a da qual viemos.

E quando digo isso não estou falando das "solteironas" e "encalhadas" do século XIX e XX, mas sim das mulheres arrojadas do século XXI. A sociedade, claro, continua cobrando a velha instituição. Entretanto, nós temos força o suficiente para ignorá-la e amor próprio para vivermos só. E não solitárias, mas em companhia de si mesmas.

Atualmente casamento e filhos são apenas mais uma opção entre tantos projetos. Intimidade, amor, troca de carinho e de experiências estão disponíveis em diversas outras formas de familiaridade.  Podemos, por exemplo, ter um caso de amor com os livros, comprometimento com uma causa, diversão com os sobrinhos, discutir relação com os amigos, educar um animal de estimação, fazer projetos de viagens, se apaixonar por um ofício, passar o tempo com um hobby, se encontrar na meditação.

E o melhor, é que depois de tudo isso, se ainda mudarmos de idéia e resolvemos formar uma – lá pelos 40, 50, 60 anos – Por que não?

Quanto a nossa família ancestral, essa carregaremos eternamente.  Com suas alegrias e tristezas, amores e indiferença, rancores e ternura. Com a vantagem que na modernidade podemos contar com uma boa terapia para ajudar. E buscarmos, assim, nos tornar mais parecido com as famílias felizes. E menos infelizes à nossa maneira filial, tão peculiar.

( Retrato da Família do Artista, 1916 - Óleo sobre tela do pintor brasileiro Eliseu Visconti)

12 de nov. de 2009

A sala de almoço não fala, mas Jane B, sim

Um livro recém lançado por uma estreante de 78 anos vem causando frisson no meio literário. Trata-se do Dom Aquino, 732. O título é uma referência ao endereço da casa onde nasceu a protagonista da história, Anna e também alterego da autora, Jane B. Seu texto possui um estilo refinado de prosa fluente, bem humorada e irônica que, em certos momentos, lembra o de Gabriel García Marquez e Isabel Allende. A novela narra a saga de uma família repleta de mulheres, que começa na cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul na década de 1930 e com o passar dos anos desemboca em diversas cidades do Brasil e exterior acompanhando a vida dos personagens.


Segunda filha de um fazendeiro, seguida por seis irmãs (só o primogênito era homem), Anna se muda na juventude com os pais para o  Rio de Janeiro e ao se casar finca raízes no bairro de Ipanema onde vive até hoje. Seu apartamento se torna ponto de encontro da família e Anna, tia querida e confidente dos 25 sobrinhos e tantos outros sobrinhos-netos.

 “Se essa sala de almoço falasse...”, é uma frase da história, um comentário de uma das sobrinhas netas que presenciou tantos segredos compartilhados naquele canto especial da casa. Segredos esses que Anna, “uma velhota de 78 anos, lúcida a ponto de andar pela casa carregando nos ombros o fantasma de sua caturrita, Tula, que pensava que era cachorro e avançava nas visitas indesejáveis e aparecera, anos antes, em seu apartamento de Ipanema com a asa machucada e fora adotada”,  resolve publicar em um livro de memórias – suas e dos outros – surpreendendo a toda família, como descreve a própria autora.

E na vida real a surpresa não foi menor. A primeira polêmica ao redor da obra surgiu quando o ex-marido de uma das sobrinhas, que não quer se identificar, acusou Dona Jane de senilidade e falta de compostura. “É um absurdo ela escancarar a vida das pessoas desse jeito. Eu deveria processá-la. Me senti diretamente atingido apesar de ela ter mudado meu nome.” Ainda segundo o ex-agregado, vários parentes se viram traídos pela idosa, mas devido às suas condições mentais resolveram não se pronunciar.

A irmã mais nova e temporã da família, Martha Baptista, rebate.  “Jane nunca disse que as histórias são verdadeiras. É ele mesmo que, ao contestar o livro, está se delatando.” Martha que também é escritora e premiada jornalista afirma ter ela própria se surpreendido com o feito da irmã. Mais pelo fato de Jane, apesar de formada em letras, nunca ter mostrado aptidão para a escrita. “De certa forma é até uma ironia. Numa família de mulheres apaixonadas pela escrita, ela que passou a vida revisando nossos textos (até publiquei uma crônica sobre isso não faz muito tempo) lança uma obra com essa qualidade e alcança esse sucesso todo a essa altura da vida.”

A sobrinha e também escritora, Bernadete Piassa, que há 20 anos mora nos Estados Unidos, tem diversos contos publicados na terra do tio Sam e, atualmente, edita de lá a versão brasileira do site de literatura Agonia, também comemora a proeza da tia. “Ela sempre foi especial. Em seu último aniversário fiz uma homenagem para ela em meu blog contando um pouco de sua história. E jamais poderíamos imaginar que ela estava quietinha em seu canto escrevendo uma obra-prima. De certa forma falando de todos nós. E com tanta maestria.” 

“Rasgação de seda” e “lavagem de roupa suja” à parte a maior surpresa de todas, entretanto, é certamente os elogios de alguns renomados críticos brasileiros que veem no texto de Jane B. “um estilo refinado e uma sensibilidade profunda sobre a condição humana”. Carlos Lima chegou a dizer que ela tem fôlego para se inserir na melhor tradição do gênero no Brasil. E Eliana Chaves afirmou em entrevista recente que Jane B é a maior revelação da literatura latina dos últimos anos.

Dom Aquino, 732  já está sendo traduzido para o espanhol, italiano e francês e é cotado para o Prêmio Jabuti na categoria de melhor novela. Em resenha publicada no jornal O Globo, o jornalista e crítico literário, Fernando Julião, depois de elogiar a obra e apostar que se tornará em breve um best seller cometeu o deslize de dizer: “Só é uma pena que Jane B tenha iniciado sua carreira tão tarde.” A anciã escritora que se recusa veementemente a dar entrevistas e posar para fotografias fez questão de responder ao jornalista uma carta de próprio punho com sua firme letra: “Tarde já vai o senhor para as masmorras do inferno. Pois eu ainda tenho muitas histórias para lembrar, livros para escrever e pretendo ficar nesse planeta até os cem.”

11 de nov. de 2009

Ida


As correntezas desse rio, eu conheço de cor.
Percorro esse caminho há não sei quantos anos. 

Cada movimento do barqueiro, cada mergulho do remo, cada detalhe da paisagem, dia após dia, deixam suas marcas em mim como a água entalha o casco do barco sob meus pés.
Meu destino não sou eu que escolho.






(No Areinho, Douro. 1880. Óleo sobre madeira do pintor português Silva Porto)

5 de nov. de 2009

Holocausto negro

Os olhos parecem prestes a sair do rosto. Vidrados, olhando sem ver.
A cabeça, maior que o corpo infantil e escuro, coberto de poeira.
Cotovelos e joelhos escapam para fora dos membros. A alma já é maior que a carcaça.
Uma mosca pousa em sua barriga. Não há ânimo para espantá-la.
Deixe-a, não encontrará migalhas para lambiscar.

2 de nov. de 2009

A besta




Cerebrino é seu nome. E acho que todos possuem um. Eu, com certeza. Em certos sonhos o sinto deslizando pelo meu telencéfalo. Vagarosamente, do hemisfério esquerdo ao direito. Se esgueirando das ondas de corrente elétrica provocadas pelos meus 86 bilhões de neurônios. É minúsculo esse ser. Pegajoso como um bicho de goiaba. Mas liso. Feito de meleca de nariz, por sua vez, composta de poluição e dejetos deste mundo. Se alimenta de idéias descartadas. Sempre à espreita, aguardando o hospedeiro ter um plano sinuoso, uma inspiração divina, uma solução cabível. Daquelas que só aparecem à noite. E brilham. Mas ao amanhecer, são encapsuladas com um tal senso de ridículo. E, assim, saboreadas pela criatura.