26 de jun. de 2010

Realização e saudades

Semana que vem termino minha Pós-graduação em Prática de Criação Literária. Mais uma etapa de vida e de criação. Já sinto falta da minha turma. Foi um curso intenso onde produzimos contos, poesias, romance, ensaios, roteiros...  Os professores, escritores renomados como o romancista Nelson de Oliveira, o contista Marcelino Freire, o poeta Edson Cruz e o cronista Luis Marra nos levaram a descobrir nossos estilos, nossas vozes. Com base nos textos que escrevíamos, discutíamos nossos acertos, deslizes,  força dramática (ou centro nervoso como prefere Marcelino), voz de cada personagem... E assim, passo a passo, melhoramos nossas produções.


Há muito tempo que eu queria fazer um curso desses. Tinha inveja de minha tia Dete que mora nos Estados Unidos e já fez alguns em Colleges e Universidades de lá. E achava muito injusto aqui no Brasil não termos uma pós-graduação para escritores ou simplesmente para quem gosta de escrever. Há quem desconfie desse tipo de aula e de oficina, argumentando que o escritor tem de ser nato. Não concordo. Alguns podem até ser, mas sempre temos algo a melhorar, experiência para trocar. E se observamos outras áreas, como artes plásticas, por exemplo, os grandes pintores na maioria frequentaram escolas de arte. Na música é a mesma coisa. Por que, então, para os escritores não existiam cursos direcionados nas universidades de São Paulo? 

Quando descobri essa iniciativa da Terracota Editora em conjunto com a Universidade Cruzeiro do Sul (nota máxima no conceito do MEC), corri para conferir. As aulas são no Espaço Terracota, um charmoso café literário com salas de aulas no andar superior. Assisti a do Marcelo Maluf, de literatura infanto-juvenil e me apaixonei. Queria fazer o curso! Mas o módulo já estava no meio e tive que esperar um mês para poder começar no próximo. Enquanto esperava bateu a insegurança. Será que vou gostar? Será que conseguirei acompanhar a turma? E a vergonha de expor meus textos? E o medo das críticas?

Minha tia havia comentado que lá nos EUA às vezes ela sentia muita concorrência por parte dos alunos. Fiquei feliz de encontrar exatamente o contrário aqui. Era sempre um querendo ajudar o outro, com análises e críticas construtivas. E todos nós vibrávamos quando alguém aparecia com um bom texto, ou o deixava melhor na reescrita. Viche Maria! Reze um Pai Nosso e uma Virgem Maria, que ele se soltou de vez! Que texto bom da porra é esse, mininu! Comemorava o Marcelino.

Em agosto a Editora Terracota publicará uma coletânea com nossos melhores contos. Aliás, nossos e de alguns dos professores. Será bom ficar guardada para sempre, ali dentro, com todos eles. E eu volto para os dois módulos que me faltam, já que entrei no curso começado. Será uma nova turma, que ainda não conheço, mas espero que tão interessante, divertida e competente como a primeira.

E aqui fica um convite para quem também ama a arte de escrever. O site do curso é o http://terracotaeditora.com.br/pcl/  e ele pode ser feito como curso livre (um ano), ou pós-graduação  lato senso (um ano e meio). E venham confiantes, pois Carlos Andrade, doutor em letras e Claudio Brites, coordenador do curso afirmam: Queremos que essa pós seja referência no país. Só continuaremos com o curso se for muito bom. E eu tenho o orgulho de dizer que fiz parte da primeira turma e um pouco da segunda.

17 de jun. de 2010

Um pouco mais sobre os astecas


Depois que voltei do México, apaixonada pela cultura dos astecas, resolvi fazer meu TCC da faculdade de jornalismo em 2007 sobre minha viagem ao país. E quanto mais pesquisava mais me interessava. Aqui vai, então, algumas curiosidades sobre esse povo guerreiro.

Em menos de cem anos, os astecas passaram de uma pequena tribo a senhores de um império com quinhentas cidades e 15 milhões de habitantes. Quando o imperador resolvia se apoderar de uma tribo, expunha suas exigências. Se os ameaçados não concordassem, os astecas – ou mexicas, como se autodenominavam em sua língua náuatle – presenteavam a tribo com lanças e escudos para que não ficassem indefesos, pois iriam guerrear.

Com base em seus calendários e astros escolhiam um dia para a batalha, que era curta e sangrenta e terminava quando os astecas chegavam ao templo do inimigo. Os cirurgiões e curandeiros suturavam os ferimentos dos guerreiros. Os escribas anotavam o número de capturados que seriam encaminhados para os sacrifícios em cerimônias religiosas.





Presente aos Deuses


Os sacrifícios eram realizados nos templos. O indivíduo era deitado na tábua específica e o seu peito aberto pelo sacerdote com uma faca de sílex. Seu coração era retirado do corpo ainda batendo e oferecido aos deuses. Os astecas acreditavam que com isso estariam livrando o mundo de catástrofes. A morte por sacrifícios, segundo alguns historiadores, era digna de honra e salvação, assim como a dos guerreiros.





A sociedade

O único modo de se conseguir um título de nobreza era se sobressaindo nas guerras. O imperador escolhia os melhores guerreiros para serem oficiais e dava-lhes terras e jóias. O vestuário demonstrava a que classe as pessoas pertenciam. Os cidadãos comuns como agricultores e artesãos usavam tangas e mantas tecidas com fibra de cactos. Já os nobres, capas de algodão enfeitadas na borda com pedras preciosas. No inverno as roupas eram forradas com peles de coelho. As penas e plumas de cores vivas tinham mais valor que o ouro e eram usadas como enfeites. As mais caras eram as do pássaro verde sagrado, o quetzal e as do beija-flor azul turquesa. Os guerreiros usavam jóias presas nas orelhas, nariz e boca. Cada classe tinha um estilo de penteado e pinturas no rosto e nos dentes.

Na cidade havia vários clãs e cada qual tinha os seus deuses, templos e escolas. Só os nobres possuíam terras, que eram oriundas de territórios conquistados pelo imperador. Quando um homem do clã se casava ele ganhava um pedaço de terra para cultivar e construir uma casa para a família.

As mulheres cuidavam dos filhos, teciam roupas que eram tingidas com corantes vegetais e costuradas com agulhas de espinhos de cactos. Elas também ajudavam nas colheitas e vendiam o excesso de produção aos mercados. As crianças, meninos e meninas, iam para a escola e todos aprendiam o básico da escrita asteca e as tradições de seus clãs. As meninas aprendiam ainda a tecer, costurar, cozinhar e cuidar de crianças; enquanto os meninos estudavam para serem sacerdotes ou guerreiros.

Os camponeses moravam em cabanas nos arredores da cidade. Os artesãos moravam em bairros próprios em casas de tijolo e ensinavam a sua arte apenas aos filhos. Eram habilíssimos ourives e ceramistas. Os comerciantes viviam em outro bairro e viajavam por todo o império com objetos para trocar ou vender. Os médicos e as parteiras também moravam em bairros especiais e seu trabalho era considerado uma arte devido à minuciosidade da prática.  Os palácios dos nobres possuíam dezenas de cômodos que davam todos para um pátio principal e eram repletos de jardins.

Fotos:
1-Retrato do último imperador asteca, Montezuma, realizado por Antonio Rodríguez no século 17
2- Pedra de sacrifícios no Museu Nacional de Antropologia e História (INAH)
3- Estátua de Tlaloc nas redondezas do INAH na Cidade do México. Tlaloc era o Senhor das chuvas, raios e trovões.


Fontes:
A conquista do México de Hernan Cortes, Editora L&PM
Os Astecas, de Judith Crosher, Ed. Melhoramentos
Filme Apocalypto de Mel gibson



8 de jun. de 2010

Um pouco mais sobre o México

Há quase 500 anos, em 1519, quando os espanhóis chegaram a Tenochtitlán, a capital dos astecas  (onde é hoje a Cidade do México)   já encontraram uma enorme cidade para os padrões da época. Com uma população de cerca de 200 mil habitantes era somente comparável a Barcelona, a maior cidade da Europa naquele momento. Tenochtitlán impressionou o capitão espanhol Hernan Cortez por suas complexas construções, templos, enormes praças e mercados organizados como descreveu em suas cartas ao rei da Espanha, Carlos V:


“Há todos os gêneros de mercadorias que se conhece na terra, desde jóias de ouro, prata e cobre, até galinhas, pombas e papagaios. Há casas como de boticários, onde vendem os medicamentos feitos por eles, assim como ungüentos e emplastos. Há casas como de barbeiros onde lavam e raspam as cabeças. Há casas onde dão de comer e beber mediante um pagamento. (...) Há verduras de todos os tipos, mel de abelha, fios de algodão para tecer, couro de veado, tintas para pintar tecidos e couros, louças de muito boa qualidade, milho em grão ou já transformado em pão de excelente sabor. (...) Há uma mesquita principal que não existe língua humana que consiga descrever a sua beleza e as suas particularidades. Sua área é tão grande que se poderia fazer ali uma vila de quinhentos vizinhos. Possui amplas salas, ótimos aposentos e quarenta torres muito altas, sendo que a mais alta é maior que a torre da igreja principal de Sevilha (...) ”






Caminhar atualmente pelo Centro Histórico da Cidade do México pode ser uma experiência surreal. Uma viagem no tempo através dos séculos sem sair do lugar. Enquanto eu caminhava pelo Zócalo onde hoje fica a Catedral, o Palácio Nacional e outras construções antigas, imaginava como era a cidade na época dos astecas. Ali ficava a praça principal de Tenochtitlán e o Templo Maior. Essa área era o centro absoluto da vida religiosa, política e econômica. Nessa praça também se montava um mercado e nos festivais o povo se reunia para cantar, dançar e oferecer sacrifícios aos deuses. Ali aconteciam as cerimônias de entronização e funerais dos chefes supremos. Os templos eram erguidos o mais alto possível para ficar mais perto dos deuses no céu. Tinham como base os conhecimentos astronômicos e eram orientados de acordo com a trajetória do Sol, da Lua, e de Venus.

Na verdade, Tenochtitlán, foi construída sobre uma pequena ilha no lago de Texcoco. Toda a região do Vale do México, que está a dois mil metros acima do nível do mar e é rodeada por cadeias de montanhas vulcânicas, era repleta de lagos que atualmente estão em processo de extinção. O lago Texcoco era salobro, pantanoso e tinha apenas quatro metros de profundidade. Entretanto, as ilhas eram rodeadas por rios cuja água doce era transportada à cidade por canos construídos pelos indígenas.




 Para aumentar as terras de campo cultivável eles faziam ilhas artificiais com uma técnica agrícola — os chinampas ou jardins flutuantes – fincando uma fileira de estacas no fundo do lago com junco entrelaçado formando uma barragem. Em cima dessa base depositavam lama até formar um monte de terra. Com o tempo as estacas produziam raízes que ajudavam a consolidar o solo cultivável e árvores eram plantadas ao redor para ajudar a conter a terra sustentando a ilha artificial.


É impressionante como a cultura dos astecas era desenvolvida. E foi uma pena o tanto que os europeus destruíram desses povos, assim como no Brasil, que desde o descobrimento até a independência teve mais de mil línguas indíginas dizimadas.  Fico imaginando como estaríamos hoje se os brancos nunca tivessem chegado para as bandas de cá.

Fotos:
1- Mural de Diego Rivera no Palácio Nacional
2- Zócalo, a praça central, com o Palácio Nacional ao fundo
3- Chinampas desenvolvidas pelos astecas



1 de jun. de 2010

Português e espanhol: línguas irmãs

Nas palestras no México, sempre utilizávamos um tradutor, já que meu espanhol não estava fluente. Juan Martín ou Laura, me acompanharam por várias escolas. Eu falava uma ou duas frases e parava para que eles pudessem traduzir. E o arranjo que a princípio me pareceu esquisito, funcionou.

Para mim aquela tradução muitas vezes soava engraçada. Parecia que eu dizia algo e logo em seguida ele ou ela repetia a mesma coisa com uma leve variação. Mas Martín garantiu-me que a história de que os falantes da língua espanhola nos entendem menos do que nós a eles é pura verdade. E me deu a seguinte explicação:

Em espanhol o som das vogais são somente um para cada: a, ê, i, ô, u. Já em português nosso a, pode soar também ã; o e pode soar ê, é e até mesmo i; o o pode ser ô, ó ou u. Sem contar nossos ão, ãe, que eles não têm. Só isso já os deixa bastante confusos. Mas ainda temos outros sons como os do g e j, que para eles também não existem; soam como r, como em Juan, que se pronuncia, Ruan. Nosso l nos finais das palavras tem som de u. E nosso s pode ter som de z. Por exemplo, na verdade, dizemos Braziu e não Brassil, como som de s e l ao final, como se escreve e eles pronunciam.


Há também aquelas expressões que parecem ser iguais, mas podem causar uma baita confusão. Se alguém lá diz que a comida está esquisita, não se preocupe, ela está deliciosa. Estranhar a alguém é sentir sua falta. Dar propina é dar uma caixinha. Um pastel é na verdade um bolo. Microfone se pronuncia micrófono, vídeo, vidêo. E quando nós brasileiros dizemos a gente, estamos nos referindo a nós; já em espanhol, la gente, se refere a eles. E se disserem para você como uma professora me disse: “Ai, que lindo, cuantas porras te dieron!”.  Não se assuste, ela está comentando como foi lindo os adolescentes gritando o teu nome na platéia, que aliás, não era Valéria e sim um simpático, Balêria.

Outras pequenas diferenças chamam a atenção para as questões culturais fazendo-nos repensar conceitos. Por exemplo, quando estamos conversando com alguém em português temos o costume de perguntar: entendeu?. Martín explicou que lá é mais educado indagar: Me fiz compreender? Pois lá a responsabilidade de se fazer entender é de quem fala e não de quem ouve.


No México a aids é chamada de Sida, aliás, nada mais certo e lógico uma vez que é a sigla da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. E o HIV, Vírus da Imunodeficiência Humana, é VIH, como se fala também em Portugal e em toda a América Latina. No Brasil, desde que foi descoberta no início da década de 1980 nos Estados Unidos, a doença se espalhou pela mídia com a sigla em inglês; o que foi sempre muito contestado por especialistas de diversas áreas. Mas o fato é que nunca se mudou, porque aqui preferimos falar como os americanos. Ou melhor, como os estadunidenses, como dizem os mexicanos. Pois americanos somos todos nós, povos das Américas.




Fotos:
1- Eu e Martín dando palestra em Texcoco (fev/2007)
2 -Eu e Laura, no hotel em Monterrei, prontas para mais uma escala (fev/2008)
3- Nós três em cima da Pirâmide do Sol em Teotihuacán (jan/2007)